Faleceu Gerson Peres, homem que viveu pelo seus ideais

Faleceu neste dia 21/04, aos 88 anos – completaria 89, em 02 de maio – o paraense, de Cametá, Gerson dos Santos Peres, vítima da COVID-19, homem que teve o maior número de mandatos parlamentares entre os paraenses e alguns poucos brasileiros e que viveu pelos seus ideais.

Doutor Gerson foi seminarista, estudou em Roma, carreira que abdicou pelo casamento e constituição de uma família. Era formado em direito pelo UFPa, onde participou ativamente do Movimento Estudantil e dai para da política partidária pelo PTB, seu primeiro partido, pelo qual se elegeu deputado estadual em 1958.

Dominava o latim, o idioma português como poucos e as letras jurídicas, o que pode ser constatado pelos seus inúmeros artigos publicados em O Liberal, aos domingos, parte deles escritos ou revisados dentro do avião em suas viagens semanais para Brasília.

Porém, o seu conhecimento jurídico ficou definitivamente provado quando tentaram lhe tirar a eleição de deputado federal numa histórica fraude. Gerson, com tenacidade e muito conhecimento em direito, conseguiu dobrar o Tribunal Regional Eleitoral e provar que havia sido lesado e manteve a cadeira parlamentar que lhe fora outorgada pelo povo paraense.

Casado com a bragantina Grancida Peres, Gerson era querido em duas das principiais e históricas cidades do Pará, Cametá, onde nasceu, e Bragança, cidade que o adotou como se filho fosse. Vivia entre as festividade de São João Batista e de São Benedito.

Ligado a comunicação e a educação, possui rádio e administrava o Senai nas duas cidades, propiciando aos jovens uma carreira profissional e uma cadeira acadêmica, através de bolsas de estudo, no tempo que seguir estudando na capital era privilégio para poucos e os que Gerson Peres apadrinhava, recebiam dele cuidados paternais durante os estudos, muitos desses jovens estavam longe da família, morando em pensionatos.

Gerson Peres teve mais poder em suas mãos do que qualquer outro político paraense. Foi presidente da Assembléia Legislativa, o primeiro secretário da Mesa na sua administração, o ex-deputado e conselheiro aposentado, Lauro Sabá, líder de Mocajuba e seu adversário político na região do Tocantins, fez questão de me passar por WhatsApp o seu depoimento sobre Gerson Peres:

“Homem e politico honesto. Quando ele foi Pte. da Alepa eu fui primeiro secretário, naquela época, ordenador de despesas e constatei isso, neste tempos a Assembléia Legislativa tinha apenas 260 funcionários para os mesmo 41 deputados”

Vice-governador, governador em exercício, deputado federal, líder e vice-líder de vários presidentes da republica, membro da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, secretário de estado. Era tão influente nos governos militares que convidou e levou o Presidente e general João Batista de Figueiredo a visitar Cametá.

Continuou influente nos governos civis, conseguiu de Fernando Henrique Cardoso uma das obras mais caras à época, porém fundamental para região do Xingu, o linhão de energia de Tucuruí até Altamira.

Com todo o poder político e o grande número de mandatos que teve em suas mãos, nunca foi acusado de corrupção e, diferente de outros, com currículos políticos bem mais modesto, não deixou patrimônio maior do que seus ganhos.

Gerson Peres frequentava nossa casa em Bragança. Amigo da família, era tido como um segundo pai para o meu cunhado, o professor Helder Aranha e muito querido por todos, principalmente pelo Seu Hildebrando e a Dona Esther Nonato, meus sogros.

Na Festa de São Benedito, em Bragança, fazia sempre o mesmo roteiro de cumprimentos e vistas aos amigos. Nos encontrávamos no leilão do Santo, onde arrematava algum donativo e doava ao seminário. Depois do leilão e das inúmeras visitas, seu Gerson ia para nossa casa, almoçávamos e conversámos animadamente sobre política. Sempre tomava um copo de guaraná, mas só depois de tirar todo o gás do refrigerante, que dizia fazer muito mal para saúde, operação realizada com auxilio do cabo de um garfo.

Numa dessas oportunidades, quando ele soube que eu havia saído do PT, me disse: “Caro Zé Carlos, agora é hora de você atravessa da esquerda para direita e se eleger, faça como eu fiz quando sai do PTB por divergências. Se ficares na esquerda vais ser perseguido e vão te atrapalhar a carreira política”

Ouvi com carinho, não segui sua orientação e fiquei na esquerda, mas caminhei um pouco para o centro, incorporando ao ideário socialista, o ambientalismo dos verdes e a nossa amizade, esta, sempre prosperou.

Tive outra grande oportunidade política com o dr. Gerson Peres, o sucedi na Secretaria de Promoção Social do Estado, de onde ele pediu exoneração para disputar uma vaga ao senado, nas eleições de 2006. Sem que ele me pedisse coisa alguma, achei por bem, por respeito e com anuência do Governador Simão Jatene, manter todos os seus antigos auxiliares e não me arrependi disso.

Gerson Peres, mesmo com a idade avançada, continuo produtivo e pensando em participar de mais uma campanha eleitoral, sem deixar um só dia de reunir e conversar sobre política, mesmo com as advertências de amigos para que respeitasse o isolamento social, até que o coronavírus veio e silenciou o grande orador, habilidade que lhe conferiu o apelido carinhoso de “patativa”.

Descanse em paz, Doutor Gerson Peres.

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