A morte do Tucunduba

A molecada do Guamá descia a pé pela Barão de Igarapé Miri até o porto que ficava à beira do Igarapé do Tucunduba – Tucunduba em tupy significa lugar abundante em tucum – será que vem dai o nome do igarapé?

O banho de água límpida e gelada era garantido. Também aproveitávamos as águas barrentas do Guamá. Tudo era festa.

Como o bairro foi local de moradia dos imigrantes cearenses, pode ser que eles tenha dado o nome ao riacho de água enferrujada, fria, que ficava barrenta quando recebia a maré do Rio Guamá, para lembrar de um importante rio do estado natal, localizado no município de Camocim.

Porém, às margens deste igarapé de águas correntes, onde muitas canoas atravessavam levando tijolos, telhas, palhas, frutas, pessoas, entre o Guamá e a Terra Firme, parando nos mais diversos portos, nos seus igapós cresciam os tucumanzeiros, os inajás, as bacabeiras, os marajazeiros, as diversas palmeiras amazônicas que gostam destes alagadiços de meia sombra.

As duas versões cabem para designar o Tucunduba. Dá para acreditar tanto numa quanto na outra.

Da Rua Augusto Corrêa para baixo, todo o cenário era Amazônico. A mata era densa. Muitos animais habitavam estas matas. O cheiro e a respiração de floresta cobria o bairro com um denso nevoeiro todas as manhãs, na hora que os primeiro raios do sol apareciam. Bacuri Pari era mato. Passarinhos ouviam-se por todos os cantos. Dominavam as coleiras, as cigarras e os curiós.

As terras de Belém, nesta região, se dividiam em partes altas, onde moravam as pessoas, e parte baixa, com poucas habitações, a maioria de ribeirinhos, com suas embarcações, levando e trazendo mercadorias e pessoas.

As mercadorias vinham dos mais diversos pontos a beira do Guamá. Também do Acará. As telhas e tijolos eram trazidas desde São Miguel do Guamá. Hoje as olarias ainda existem, mas a carga viaja pelas estradas.

As pessoas, não eram de tão longe. Acho que no máximo de Santa Izabel e Bujaru, mas vinham muitos do Acará. Até hoje, ainda tem um vai e vem de parentes, apesar de não mais precisarem do velho Tucunduba, que ainda tem alguns poucos barcos navegando entre o mau-cheiro e as garrafas plásticas boiando junto com outros dejetos.

Não lembro, sinceramente, quando foi que iniciou o processo de destruição deste importante caminho de águas.

Não lembro!

Lembro do tempo em que decidiram implantar o campus da Universidade Federal do Pará. Acho que foi o primeiro marco de grande mudanças.

Outro momento que guardo de memória foi a abertura da Avenida Perimentral. Ela deu acesso a outra margem do Igarapé do Tucunduba. As terras por ali passaram a ser procuradas para moradias. Mas não se pode desprezar o estímulo de ocupação da Amazônia feita pelo Governo Militar. A migração e a pressão imobiliária vieram juntas.

O Governo do Estado e a Prefeitura de Belém vem lutando para recuperar o Tucunduba, já gastaram muito dinheiro e tempo, mas nunca mais ele será como era na nossa infância.

A imagem das águas cor de guaraná Baré, que dava para ver os peixes e o fundo de areia, não voltam, ficaram no passado, acho que no início da década de 70.

Se tivéssemos lutado por ele, convencido as pessoas a não desmatar suas margens e nem ocupar suas nascentes, a história seria outra, mas fomos covardes.

Covardes não digo, acho que nem sabíamos da força destruidora das pessoas em busca de habitação?

E se soubéssemos, será que evitaríamos a sua destruição?

Vendo as pessoas enfrentarem o perigo do coronavírus porque não aceitam usar máscaras, fazer higiene e manter distanciamento, acredito que mesmo sabendo que suas atitudes comprometeria a vida do Tucunduba, mesmo assim, o matariam como mataram.

O processo acelerado de urbanização, com a ocupação de suas margens, destruiu toda a vegetação que protegia o Tucunduba. Os aterros eleitorais fizeram o enterro deste importante curso d’água de mais de três quilômetros de extensão.

“A evolução do processo de urbanização ocasionou o adensamento populacional e a consequente redução 755% na área de vegetação do igarapé, no período de 1972 para 2006.
A competição pelo uso do solo no igarapé do Tucunduba resulta num aumento da degradação do recurso hídrico pela ação dos aterramentos feitos para evitar os alagamentos, da disposição de irregular de resíduos e do esgoto, lançado diretamente no corpo hídrico.”

Foi a conclusão que chegou o mestre Francisco Cardoso de Matos, em sua dissertação, que pode ser acessada por quem desejar se aprofundar e conhecer este riocídio, riocídio, assassinato de rios, será que existe esta palavra?:

Hoje, olhando as máquinas trabalhando por lá, tentando recuperar algo irrecuperável, custo a crer que algum jovem, morador de Belém, associe a Terra Firme e o Guamá, às margens do Tucunduba, com a ideia de floresta Amazônica.

Acho que eles nem se sentem morando na Amazônia. Talvez, por isso, não a defendam.

Uma pena!

Estão cometendo o mesmo erro que nós, meninos do Guamá, cometemos.

Acho que no futuro, escreverão um texto, como eu escrevo agora, lamentando a morte da floresta e o pouco caso que fizeram. Isto se a morte da floresta não significar o fim da vida na Terra.

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