Derrocamento do Pedral do Lourenço desorganizará toda a vida na região do médio e baixo Tocantins

O governo federal autorizou as obras de “Derrocamento do Pedral do Lourenço”, para construir um canal de 160 metros de largura, por 40 metros de profundidade e 43 quilômetros de comprimentos sobre as rochas, localizadas no leito do rio Tocantins, a altura do município de Itupiranga, lado de cima da barragem da Hidrelétrica de Tucuruí.

Serão usados muitas cargas de dinamites, com a previsão de três explosões diárias para estourar as pedras do Pedral do Lourenço.

As obras, que permitirão a navegabilidade na Hidrovia Araguaia-Tocantins, destinam-se ao tráfego de enormes barcaças, transportando minério e soja, para que alcancem o Porto de Barcarena e de lá, sejam exportadas para o exterior, mantendo o destino que a União Federal impôs ao estado do Pará de fornecedor nacional de commodities agrícolas e minerais, para o saldo da balança comercial brasileira.

Obras foram autorizadas pelo PPA e estão sobre a responsabilidade do DNIT.

Os impactos econômicos, sociais e ambientais dessa obra de derrocamento e do funcionamento da Hidrovia, para as comunidades ribeirinhas da região do médio e baixo Tocantins, atingindo populações e o meio ambiente de pelo menos 10 municípios, ainda não estão totalmente dimensionadas e nem os atingidos foram esclarecidos sobre as mitigações e compensações socioambientais.

O movimento social da região, reunindo mais de 100 entidades da sociedade civil, dos municípios, a montante e a jusante, se mobiliza para conhecer em que essas obras mudarão os seus modos de vida, visto que dependem da pesca, do rio e da terra para viver com suas famílias.

O deputado Carlos Bordalo, representante da bancada do Partido dos Trabalhadores, pautou o tema na Assembléia Legislativa, propondo a realização de plebiscito entre as populações dos sete municípios a montante da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, mas, até aqui, embora o esforço do Parlamentar, o tema teve pouca audiência dos seus pares.

Mesmo sem os estudos ambientais em mãos, é possível inferir que as explosões diárias afetarão todo o sistema ecológico construído durante muitos séculos pela natureza, desorganizado a vida das especieis que dependem dos pedrais para se reproduzir e viver.

Os impactos sociais e econômicos desorganizarão definitivamente a vida de todas as comunidades tradicionais e de pescadores artesanais impactadas direta e indiretamente.

Os produtos químicos, decorrentes do uso dos explosivos, contaminarão, por algum período, as águas do Tocantins.

Quais os efeitos desses químicos e do barulho das explosões, ainda não estão totalmente esclarecidos para os principais interessados e as vidas subaquáticas, objeto de direito, nem poderão se manifestar de modo próprio.

Os defensores da obra articulam argumentos favoráveis, que encontram eco em parte da imprensa, do setor produtivo, dos políticos e até de parte da academia.

O principal deles é que a hidrovia oferece muitas vantagens sobre a rodovia. Essa, em particular, retirará de circulação carretas bi-articuladas que circulam diariamente usando a Rodovia PA-150, queimando combustível fóssil e emitindo gases de efeito estufa.

O argumento é forte e tem aparência de coerente, mas é só a aparência. A opção que o sistema econômico, empurrado de goela abaixo da população ribeirinha atingida, pode ser chamada de “Opção do Diabo”, quando os (obriga) a escolher a morte menos dolorosa.

A obra de derrocamento fará grandes estragos na vida das pessoas que exercem a agricultura familiar, a pesca e todas as demais atividades ligadas ao rio. Não transportará os produtos e nem impulsionara os pequenos negócios. Servirá apenas para beneficiar a monocultura predatória que derruba a floresta, usa grandes áreas de terra e enormes quantidades de agrotóxicos para produzir soja, que será transformada em alimentos processados, que voltarão para as prateleiras dos atacarejos, a preços exorbitantes, provocando grande número de doenças decorrentes da obesidade e alimentação inadequada.

Após o derrocamento, o funcionamento da Hidrovia, trará muitos outros impactos, estes permanentes, que serão experimentados pelos habitantes da região diretamente e indiretamente impactada.

O movimento diário das barcaças afetará a vida de todas as pessoas e do ecossistema de forma permanente, inclusive com o dano decorrente do vazamento dos produtos transportados, que, invariavelmente, são impregnados de veneno e outras substâncias químicas.

A Hidrovia também impactará as terras da região, algumas de propriedade coletiva, que serão buscadas pelas empresas para transformá-las em grandes áreas de plantios da monocultura agrícola. Na região encontram-se terras indígenas, quilombolas, ribeirinhas, muitas delas seculares, com culturas históricas de valor incalculáveis e praticantes da agricultura familiar e da pesca artesanal.

Tão grave quanto todos os aspectos aqui abordados, a Hidrovia Araguaia-Tocantins representa a perpetuação do modelo econômico imposto ao Pará.

O destino do povo paraense não é o de morar em um estado rico com povo pobre.

A maioria de nossa gente, herdeira dos saberes milenares, sabe como nem uma outra cultura, produzir e preservar. O modo de produção local é a riqueza maior a ser preservada e incentivada, pois é ele que sustenta a floresta em pé e a vida do povo.

O Pará produz minério, energia, cacau, açaí, pimenta do reino, mandioca, pescado, soja, boi, etc, mas amarga índices de pobreza e desigualdade sociais e econômicas absurdos.

A verticalização mineral pleiteada e tão prometida nunca veio. Dizem ser impossível alcançá-la. O emprego e o desenvolvimento prometido pela criação do boi, da mineração e da soja não aparece.

O Pará é o maior produtor de açaí do mundo e os cinqüentas produtos a base de açaí mais consumido no Planeta são produzidos no Estados Unidos e não aqui. Isso representa um humilhação a classe dirigente do nosso estado.

O Pedral do Lourenço vai ser derrocado. A Hidrovia vai ser viabilizada. Os movimentos sociais vão resistir. A natureza, objeto de direitos, espera ser defendida. O deputado Bordalo seguirá sua luta justa.

O resultado dessa contenda dependerá de conscientização, mobilização e engajamento dos paraenses que realmente se preocupam com o futuro sustentável da nossa gente. Só a resistência é capaz de assegurar um espaço na mesa das decisões sobre o que importa.

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